domingo, 28 de outubro de 2012

Este foi o estado que o Estado regalou.



 (Manifestação no dia de conselho de Estado 21/09/2012)



 O semblante pálido ataviava de simplicidade aquele caquéctico rasto de existência, aqueles rugas que encarquilhavam poeticamente a antiga suavidade sobre a qual mergulhavam finas linhas de vento, anunciavam muitas décadas de existência, e aquele olhar fortemente carregado por uma gritante angustia, soltava, já sem muita força, um resigno à mudança.
     Foram várias as suas lutas, a sua diferença espelhava-se na igualdade de outros tantos que tampouco eram capazes de entender uma ideologia pré-definida numa lógica questionável.
    A cada dia que passa morre com  as vicissitudes políticas que vomita o novo pícaro. Acreditava numa Constituição que como pergaminho vale muito mas como realidade mofa-se de quem a lê.


Artigo 2.º
(Estado de direito democrático)



"A República Portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular,  no pluralismo de expressão e organização política democráticas, no respeito e na garantia de  efectivação dos direitos e liberdades fundamentais e na separação e interdependência de  poderes, visando a realização da democracia económica, social e cultural e o aprofundamento  da democracia participativa."


Sem dúvida que é belo, os mandamentos também o são, mas nem o Vaticano os põe em prática. São escrituras dotadas de simples palavras que no seu conjunto, tudo ou nada podem significar.

Estão dotadas de uma lábia enjoativa empapada numa floritura sardónica. Foram "maquetadas" num horizonte real que escandalosamente se transformou em utopia.
O problema não está na constituição, o problema está na interpretação escabrosa que dela pode surgir, está nos quantos que continuamente a desprezam dando-lhe uma importância diametralmente oposta.

As suas lutas foram grandes, sozinho cruzou a calçada feita pelos seus,  e o seu corpo deambulou entre milhares que em uníssono cantavam suavemente, entre os gritos, "Grândola vila morena".
Mas os gritos, a violência, os cânticos que imploram piedade, já não são mais do que reflexo de pieguices do "melhor povo do mundo". E é este povo, dotado de serenidade e cheio de fé num D. Sebastião que hoje e desde 1974 revelou ser as Forças Armadas, que de forma contínua e deliberada mantém uns parasitas capitalistas que mudam de escudo ou de lema, mas nunca de estratégia.

Foi num dia 8 que suas lutas terminaram, o seu ermo assentava sob o banco de jardim, eram as 7 da manhã de uma noite que se mostrou vazia; apenas a lua cheia acompanhou o gelo seco do ultimo suspiro.
Ele acreditava ter deixado de lutar, mas o sino avariado da catedral, alertou à cidade  que quem abandona um sonho, cospe na vida.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

As palavras









Foi um breve momento, tão breve, tão ridiculamente breve que não existiu para ti. Mas como grande parte das patéticas palavras que teimam em ser absolutas esta relativa brevidade enojou-me.
Tudo não era mais que uma insónia de dúvidas, uma insónia que como todas as outras, oferece o vazio como um intenso ruído, que floresce na imensidão do silêncio desta mente privada de controlo. São estas lógicas sem sentido que nos regalam as palavras, e é esta ordem, que não se organiza, que teimo em não compreender.
O uso das palavras sempre foi algo difícil, mais ainda quando os primeiros significados são piores que os segundos, e os segundos não são tão reais quanto os primeiros.
Mas as pessoas são como as palavras, nem sempre significam o que pensamos que representam, nem sempre têm um só conceito, nunca têm um só conceito!
Já me fartei das pessoas, não das palavras, as pessoas podem abusar das palavras, já as palavras, sobejamente dotadas de significados, são incapazes de abusar das pessoas. Sem as pessoas as palavras seriam mais caras, no entanto com as pessoas as palavras tornam-se mais ricas.
As palavras não são mais que pequenos seres que parasitam o silêncio, e o silêncio é o combustível que acciona as palavras que são pensadas quando tinham de ser articuladas.
Não sei porque continuo a alimentá-las, elas fazem-me lembrar pessoas, e estas últimas aborrecem-me.
E é nesta ausência de palavras mas forte presença de ruído que sei que o meu problema não são os termos, nunca foram, o meu problema são os seres, que armadilhados de inteligência nunca foram tão ignorantes. E outros tantos, que de pouca inteligência nunca foram tão ignorados. 

domingo, 23 de setembro de 2012

Tronco revestido a pele









Por uma vez mais o carniceiro que dá as boas vindas a esta velha rua deixou-me um fémur soberbo, é enorme, duplica o meu tamanho. Este resquício, tal como outros, serviu para mim e para dez mais como eu que todos os dias anseiam pelo sol que com ele traz este belo senhor encarquilhado como uma passa. Não sei o seu nome, não sei o que diz, mas sinto que emana amor quando ecoa sons direccionados à minha peluda cara, regozijo-me de prazer quando os seus duros calos suavemente me acariciam a barriga. Já não há muitos como ele, antes sim, pelo menos era o que dizia a minha mãe, mas agora não, agora escasseiam, ela dizia que a culpa é de uns grandes e frios gáudios repletos de comida para mim, mas… eu não sei comprar, eu não entendo como funcionam aqueles bocados de metal que já cheguei a engolir porque eram escuras, sujas, pequenas, e alguém deixou cair, como me deixaram a mim, e tal como eu, não a foram buscar. Ainda olharam de soslaio com o seu semblante adusto, mas isso já exigiu demasiada atenção.
Não sou novo por esta rua, novos são os rostos que todos os dias olham para mim com um sorriso enorme ou com uma cara de piedade ainda maior, mas apenas são capazes de massajar-me o lombo até o momento que encontram estes pequenos bichos que me parasitam, que me incomodam, que me sugam o sangue. Mas isso realmente não me importa, quando sugam demasiado coço-me insaciavelmente até que mudam de sítio. Pior foi a minha mãe, era pequeno, adorava dormir na sua barriga privada de pêlos, aquela barriga quente confortava-me tanto, trocávamos olhares continuamente, tentávamos desvendar as palavras dos seres que nos tinham acolhido, falávamos horas e horas enquanto ela ensinava-me os truques para conseguir mais atenção, a argúcia necessária para conseguir biscoitos, mais compaixão…
Chovia como nunca, acordei quando uma alimária retirava-me a mãe com uma brutidão inexplicável, e já com uma corda ao pescoço permanecia a duas patas atada a uma árvore morta, apenas tinha um elevado tronco seco. Vi um funesto metal acertar-lhe na cabeça vezes sem conta, vi como chorava, ouvi como gritava que fugisse enquanto suplicava misericórdia, mas também vi como os seus olhos azul caribenho saltaram repentinamente da sua cabeça… Da minha mãe apenas sobrou um rasto de existência, um corpo quase que suspenso e um lago escarlate donde apenas nadavam os seus olhos e alguns dos seus dentes.  
 Foi uma semana depois desta atrocidade que conheci outros tantos como eu, todos entendiam o que dizia e o que sentia e por isso nunca me senti tão bem, nunca fui tão compreendido, mas infelizmente a compreensão não nos traz comida nem água, não me traz abraços e mimos, apenas traz uma sensação de falsa segurança por não estar só.
Nunca contei a minha história a nenhum que não fosse da minha espécie, não foi por não tentar, foi unicamente porque sempre que tentava fugiam, tinham medo de mim, batiam-me ou afugentavam-me. Eu sei que vou morrer conformado com estas infrutíferas tentativas e por essa razão anseio pelo dia em que alguém com voz possa falar por todos nós.




Para quem estiver interessado a assinar a petição promovida:
http://www.peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=AANIMAL



terça-feira, 28 de agosto de 2012

O último suspiro foi delicado



Foi em 2012, posso precisar o dia, 27. Raras vezes fui capaz de esquecer este dia, mas a frágil força que este dia passou a ter, tornará essa raridade em algo todavia mais extraordinário.
Chamavam-lhe delicada, eu prefiro chamá-la guerreira, sim, assim foi, responsável por uma tribo de seres que hoje vagueiam por este pesado mundo, enquanto soltam subtis lágrimas.
Mãe de 9 filhos e mãe adoptiva  de outros 6, avó e bisavó de dezenas de netos e bisnetos, deixou várias gotas soltas pela ilha, que juntas, formam a maior levada que por aqui circula.
Vítima resistente de Parkinson e Alzheimer, fez questão de rir, sem saber bem porquê, 15 minutos antes de decidir abandonar o já moribundo e chagoso corpo.
Se há algo que aprendi com ela, é que a cordialidade tem limites e que filhos da puta são pessoas que se fingem normais. E hoje, aqui sentado, e sabendo que aquele ser que me deu vida já se esfumou na imensidão do incerto, tenho noção de que um quarto das minhas palavras é ela quem escreve, e por estar tão seguro disso como estou seguro da sua morte, não me inquieto, porque sei que ela persistirá em mim até o dia em que irei com ela, não para o falso céu dos cegados pela fé, mas sim para um ataúde, tão de madeira como o dela e tão gloriosamente ataviado como o tecto que agora a cobre.
 Já no auge da missa, soltei lágrimas sem rumo, não por duvidar que agora está mais tranquila do que estava à meras horas, mas porque incapaz de ver uma imortalidade pregada por um ser lividamente vestido, e que distribui pão sem sal para saciar todas as desalmadas almas que compartem o meu sangue, não era capaz de entender qual poderia ser o próximo passo ou porque razão essa etapa tem de existir, senão para tranquilizar os que por cá ficam na incógnita, e no medo que poderão ser os próximos.
 Hoje enquanto via as luzes da carrinha cinza que de longe deixava ver o castanho da lustrosa madeira e o brilho das pequenas velas, pensei, demasiado, pensei tanto, pensei no porquê de ser preciso viver um lúgubre momento para reaver velhos familiares, que continuam cá dentro bem guardados, neste escarlate coração, da mesma forma que estiveram aquando da minha infância. Pensei, se apesar do seu corpo estar ali deitado, estaria ela a espreitar os meus pensamentos e os dos demais, ou se realmente o nada já se tinha apoderado de tudo. Naquele momento o meu silencio foi ocupado por mais palavras que qualquer dicionário possa suportar.




sábado, 18 de agosto de 2012

Virtudes


   Era o debate na pensão amor, um dos corpos empertigou-se e questionou fortemente as qualidades deste passar efémero que alguns arriscam a chamar vida, a sua, e a dos demais. 
   Que capacidades extraordinárias teriam aqueles seres, desenhados a partir da mesma base, um pincel, que apenas muda de número ou usa outra tinta.
    Um granjeou soltar um absurdo argumento que lhe tenta colocar ao nível de Pessoa.                           - Sou falso, tão genuinamente falso, que não sou mais que a verdade.
    Outro, da farta tinta esbanjada aquando da sua impressão, acreditava ser o Monet contemporâneo. De facto, a penumbra que rouba a sua nitidez, perto do macróbio candeeiro a óleo, quase apagado, era admirado por qualquer impressionista. 
   Eu também lá estava, na pensão, sem amor. Não pensei no valor da minha vida, porque quando o faço, torno-a mais pobre, em vez disso, engrandeci o escabroso momento, não sei se voltaria a fazê-lo, mas era tal o opróbrio que me consumia, fruto da ausência de minimais atributos, que pareceu-me o  mais correcto.
   Entre as soltas conversas, que serpenteavam, como a água salina entre os calhaus talhados, comecei a entender qual o verdadeiro significado de existir, já completamente absorto da discussão entre o novo Pessoa e Monet, dou-me conta do surrealista que a vida chega a ser. Questiono-me o porquê da existência da palavra surrealismo. Se este é tão real que consigo contemplar. Afinal a persistência da memória existe, e o seu realismo é tão mais autêntico que as virtudes que o meu corpo acaba de calar.
Sem motivos para pertencer a esta plêiade, retirar-me-ei, apenas levarei comigo o mais próximo dum dom que Deus me deixou, a minha pobre visão.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Figurantes da Minha vida

    Oiçam! É este o som do seu pesado passo.
    Vejam! É esta a prova eles realmente existem.
    São uma sombra, que muda como o número do viciado dado. São meras estatísticas de passagem. E como sombra que são, não vejo as suas caras, apenas sinto o quente vento que já passou.
    São muitos, demasiados, milhares cruzam a calçada pisando as pedras já gastas pelo meu passar. Todos eles são tão importantes como os demais, todos juntos conseguem formar, apenas um.
Uns responsabilizam-se por expurgar a sobrevivência, outros aceitam a mera condição de existência.
Mas independentes de qualquer jogo de sorte e livres para pensar, optam por preencher a minha vida, preferem viver do passar.
    Não insistam mais figurantes da minha vida, parem de transformar as ruas neste monótono cenário, porque estou cansado de alcançar o vosso olhar, triste sem razão, a razão que nunca cansa, a razão da repetição.
     Mas vivem no presente, desde a avenida rumo ao frio coração, pobres insalubres, o coração de um,  não se vende a um batalhão.
   Que lástima de seres, que desconhecem o passado, são mais efémeros que o tempo, e todos eles são gente! A ocupar sempre o mesmo lado.
     E aborrecido de sentir que só olho por olhar, sorri para alguma desta gente, que anseia por falar.
     Mas como figurantes, não lutem pelo meu papel, porque esse já sois vós, sem voz!

 Mas o figurante que sou eu, ocupará a vossa vida, sob a lucidez da minha condição lutarei por não esquecer o passado, porque nele guardo a nostalgia, do tempo em que era outro o meu dado.





segunda-feira, 23 de julho de 2012

Eutanásia

    Vejo a sua alma, está ali, pousa sobre a sombra da morte, ali, ao lado do falso candeeiro.
    Sinto a cadavérica respiração que sibila cada vez mais forte...
    A presença duma memória que faz esquecer a ausência doutras tantas, encarquilha toda a face do velho macilento, que se deleita em frios lençóis rasgados de dor.
     Padece, morrerá, já deixou de ter fé, sim, fé!
   O seu corpo pouco a pouco perde a vitalidade que mantinha no dia em que era um mero rapazinho que saltava entre o arco-íris bicromático da calçada de Lisboa, e no dia em que já adulto tomou a primeira e livre decisão. Mas agora, está ali, estancado, anseia pela morte que pouco a pouco lhe acaricia o magro rosto, enquanto se maravilha pelo temor que provoca. E assim estará a morte, ansiosa e indecisa, cruel e bela, durante dias, semanas ou meses. Pouco a pouco provocará a morte pela ansiedade de morrer, mas enquanto não o faz, ali estará o velho desprezado, sentado ao lado do comatoso que há 10 anos respira sobre os oxidados ferros da desconfortável cama, que descansa sobre o chão de madeira que assenta sobre outros tantas salas que partilham o mesmo pensamento.
   A morte aproveita-se da falta de liberdade e torna o morrer numa triste verdade, mas na tarde em que essa liberdade veio, morrer tornou-se num último e belo passeio.